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Trusts e Fundações

Asset Protection Trust Offshore: o que protege no Brasil

•10 min de leitura•Autor verificado.•Atualizado em

Resposta rápida

Um asset protection trust offshore separa bens do instituidor em um trust de lei estrangeira, mas não protege por si só. No Brasil, a Lei 14.754/2023 mantém os bens com o instituidor para fins de imposto, e o credor pode pedir a anulação da transferência por fraude contra credores em até quatro anos.

Prazo para anular por fraude contra credores
quatroanos
Limite da CBE anual
US$ 1.000.000,00em 31 de dezembro
Prazo da CBE anual
15 de fevereiro a 5 de abril
Titularidade dos bens do trust para a Lei 14.754
Instituidorart. 10
Imagem ilustrativa: Asset Protection Trust Offshore: o que protege no Brasil

Um asset protection trust offshore é um trust de lei estrangeira para o qual o instituidor transfere bens, a fim de separá-los de riscos futuros. Ele não protege por si só. No Brasil, a Lei 14.754/2023 mantém os bens com o instituidor para fins de imposto, e o credor pode pedir a anulação da transferência por fraude.

O que é um asset protection trust offshore e quem são as partes?

O nome "asset protection trust" descreve a finalidade, não um tipo de trust previsto em lei brasileira. A lei define o trust como uma "figura contratual regida por lei estrangeira" que organiza a relação entre instituidor, trustee e beneficiários sobre os bens indicados na escritura (Lei 14.754/2023, art. 12, I).

ParteQuem é, segundo a Lei 14.754/2023 (art. 12)
Instituidor (settlor)Pessoa física que, pela escritura, destina bens de sua titularidade para formar o trust
TrusteePessoa física ou jurídica com dever fiduciário, que mantém e administra os bens conforme a escritura e a carta de desejos
BeneficiárioQuem recebe do trustee os bens e seus frutos, conforme a escritura e a carta de desejos
Escritura (trust deed)Ato escrito do instituidor que rege o trust, a atuação do trustee e as regras de distribuição

A palavra "offshore" indica apenas que a lei do trust e, em regra, os bens estão fora do Brasil. Para a Receita, isso não tira o instituidor do alcance da lei brasileira. Para saber como o trust funciona em geral, veja o guia trusts: instituidor, trustee e beneficiário.

Como a lei brasileira trata os bens colocados em um trust?

Para os fins da Lei 14.754/2023, os bens e direitos do trust permanecem sob titularidade do instituidor depois da criação do trust. Eles só passam ao beneficiário na distribuição ou na morte do instituidor, o que ocorrer primeiro (art. 10, I e II).

Três consequências aparecem no texto da lei:

  • •Os rendimentos e ganhos de capital são considerados auferidos pelo titular e submetidos ao IRPF pelas regras aplicáveis a ele (art. 10, § 3º).
  • •Se o trust tiver uma controlada no exterior, ela é tratada como detida diretamente pelo titular, com as regras de tributação de controladas (art. 10, § 4º).
  • •A mudança de titularidade do patrimônio do trust é tratada como transmissão gratuita: doação, se ocorrer em vida, ou transmissão causa mortis (art. 10, § 2º). Se o instituidor abdicar de forma irrevogável do direito sobre parte do patrimônio, a transmissão pode ser considerada anterior à distribuição (art. 10, § 1º).

Essa regra é tributária ("para fins do disposto nesta Lei"). Ela não decide sozinha se um credor consegue alcançar os bens, mas mostra que o direito brasileiro não trata o trust como patrimônio de outra pessoa. Para a visão tributária completa, veja trust offshore: vale a pena para brasileiros.

O trust protege o patrimônio contra credores no Brasil?

Só protege se a transferência não puder ser desfeita. O Código Civil permite aos credores anular negócios do devedor que os prejudiquem, e o CPC torna ineficaz perante o exequente a venda feita quando já corria ação capaz de levar o devedor à insolvência.

Há dois mecanismos diferentes, e vale conhecer os dois:

PontoFraude contra credoresFraude à execução
Base legalCódigo Civil, arts. 158 a 165CPC, art. 792
Situação típicaDevedor já insolvente, ou reduzido à insolvência pelo ato, transmite bensBem alienado quando já tramitava ação capaz de reduzir o devedor à insolvência
EfeitoNegócio anulável, a pedido dos credoresAlienação ineficaz em relação ao exequente (art. 792, § 1º)
Quem pode pedirCredores quirografários que já eram credores ao tempo do ato (art. 158, § 2º)O exequente, no processo

No caso de transmissão gratuita, o art. 158 se aplica "ainda quando o ignore": o devedor pode ser alcançado mesmo sem saber que ficaria insolvente. Se o negócio for oneroso, o art. 159 exige que a insolvência seja notória ou que o outro contratante tenha motivo para conhecê-la. Anulado o negócio, a vantagem reverte em proveito do acervo dos credores (art. 165).

O prazo para pedir a anulação por fraude contra credores é de decadência de quatro anos, contado do dia em que o negócio foi realizado (art. 178, II). O art. 792 não trabalha com esse prazo: o que importa é se havia ação em curso no momento da alienação. Por isso o momento da transferência pesa mais do que qualquer cláusula da escritura. O tema é aprofundado em proteção de bens contra credores.

Cláusula de coação e perda de controle resolvem o problema?

Não resolvem sozinhas. Escrituras de trust costumam prever mecanismos que dependem da lei do país escolhido, como cláusulas para o trustee não cumprir ordens dadas sob pressão judicial e a figura de um protetor do trust. Quanto cada uma funciona é matéria da lei estrangeira, que deve ser conferida na legislação oficial daquele país com advogado local.

Do lado brasileiro, três pontos limitam o que uma cláusula consegue:

  1. •O juiz brasileiro age sobre o devedor. A fraude contra credores e a fraude à execução se discutem em processo no Brasil, entre credor e devedor, e não dependem de o trustee aceitar a decisão.
  2. •Controle mantido enfraquece a separação. Quanto mais poder o instituidor conserva sobre os bens, mais o trust se parece com patrimônio dele. A própria Lei 14.754/2023 já parte da premissa de que os bens permanecem com o instituidor.
  3. •Decisão brasileira no exterior depende do país dos bens. Uma decisão estrangeira só vale no Brasil depois de homologada (CPC, art. 961). O caminho inverso, executar uma ordem brasileira no exterior, segue a lei do país onde estão os bens.

Quem estuda o desenho em jurisdições específicas encontra detalhes em trust nas Ilhas Cook, trust em Nevis e DAPT nos Estados Unidos. Para comparar jurisdições, leia jurisdições de asset protection.

O que o brasileiro precisa declarar quando tem um trust?

Há duas frentes: a Receita Federal e o Banco Central.

  • •Receita Federal. A Lei 14.754/2023 manda o titular declarar na DAA, diretamente, os bens e direitos do trust, pelo custo de aquisição (art. 11, em relação à data-base de 31 de dezembro de 2023). O instituidor ou o beneficiário deve pedir ao trustee os recursos e as informações para pagar o imposto e cumprir as obrigações no País (art. 10, § 5º). Se o trustee não atender, a obrigação continua com o instituidor ou o beneficiário (art. 10, § 8º).
  • •Banco Central (CBE). A Declaração de Capitais Brasileiros no Exterior anual é obrigatória para residentes cujos ativos no exterior totalizem US$ 1.000.000,00 ou mais em 31 de dezembro (Resolução BCB 279/2022, art. 10). O prazo da declaração anual vai de 15 de fevereiro a 5 de abril do ano seguinte, e a multa por não declarar vai de R$ 2.500,00 a R$ 250.000,00, segundo a página do BCB.

Depósitos mantidos no exterior e não declarados à repartição federal competente também aparecem no parágrafo único do art. 22 da Lei 7.492/1986, que trata de evasão de divisas. Cada caso depende dos fatos, e a análise é de advogado ou contador.

Quando o asset protection trust não é a ferramenta certa?

Vale reconsiderar quando existe cobrança, ação ou risco concreto e previsível. Nessa situação a transferência pode ser anulada ou declarada ineficaz, e o prazo de quatro anos do art. 178 ainda não terá corrido.

Também não faz sentido quando o patrimônio é pequeno diante dos custos de manter um trustee e de cumprir as obrigações acessórias, ou quando o objetivo é só pagar menos imposto: a Lei 14.754/2023 tributa o titular normalmente. Para sucessão e proteção dentro do país, uma holding pode ser a escolha, e a comparação entre trust, LLC e holding ajuda a decidir. Se a estrutura combinar LLC e trust, veja LLC dentro de trust.

O que conferir antes de assinar a escritura?

  1. •Passivos e ações em curso. Liste dívidas, garantias e processos, inclusive os previsíveis. Isso define se a transferência pode ser atacada por fraude.
  2. •Parte do patrimônio. Avalie se o instituidor continua com bens suficientes para suas dívidas. A insolvência provocada pelo ato é o gatilho do art. 158.
  3. •Lei e trustee. Peça a lei escolhida, o texto da escritura e a licença do trustee. Peça por escrito o que o trustee fornecerá para o IRPF e para a CBE.
  4. •Cláusula do art. 10, § 6º. A Lei 14.754/2023 exige que a escritura ou a carta de desejos traga redação que obrigue o trustee, de forma irrevogável e irretratável, a observar a lei brasileira. Confirme se o documento prevê isso.
  5. •Custos. Peça proposta do trustee e do assessor por escrito. Este artigo não estima valores.
  6. •Opinião de advogado brasileiro e local. O desenho precisa fechar nas duas leis.
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Dr. Heitor Miguel

Advogado inscrito na OAB/SP 252.633. MBA em Direito Empresarial e M&A pela FGV. Especialista em Direito Internacional e iGaming. Presidente da Comissão de Direito Internacional da OAB/SBC. Deal Maker of the Year 2014 - IAE Awards.

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O que é um asset protection trust offshore?

É um trust regido por lei estrangeira, usado com a finalidade de separar bens do instituidor de riscos futuros. A lei brasileira define o trust como figura contratual de lei estrangeira (Lei 14.754/2023, art. 12, I), mas não cria um tipo especial de trust de proteção patrimonial.

O asset protection trust offshore é legal para brasileiros?

A Lei 14.754/2023 reconhece o trust no exterior para fins de tributação, e o titular precisa declará-lo. A legalidade de cada estrutura depende dos fatos: transferir bens para frustrar credores pode levar à anulação (Código Civil, art. 158) ou à ineficácia (CPC, art. 792).

Os bens do trust deixam de ser meus para a Receita?

Não. Para os fins da Lei 14.754/2023, os bens permanecem sob titularidade do instituidor após a instituição do trust e passam ao beneficiário na distribuição ou na morte do instituidor, o que ocorrer primeiro (art. 10, I e II).

Por quanto tempo o credor pode contestar a transferência para o trust?

Na fraude contra credores, o prazo de decadência é de quatro anos, contado da data do negócio (Código Civil, art. 178, II). Na fraude à execução, o critério é a existência de ação capaz de reduzir o devedor à insolvência no momento da alienação (CPC, art. 792, IV).

Preciso declarar o trust ao Banco Central?

A CBE anual é obrigatória quando os ativos do residente no exterior somam US$ 1.000.000,00 ou mais em 31 de dezembro (Resolução BCB 279/2022, art. 10). Vale conferir a regra vigente e o prazo na página do BCB, porque o enquadramento depende do total dos seus ativos no exterior.

Quanto custa montar um asset protection trust offshore?

Este artigo não informa valores, porque não há fonte oficial que os fixe. Os custos dependem do trustee, da jurisdição e da estrutura. Peça proposta por escrito, com taxa inicial e anual, e compare com o benefício esperado em trust offshore: vale a pena?.