Trust de Nevis: Como Funciona e o que a Lei Brasileira Diz
Resposta rápida
O trust de Nevis segue a Nevis International Exempt Trust Ordinance, mas a lei de Nevis não vale como escudo no Brasil. Para a Lei 14.754, os bens continuam do instituidor até a distribuição ou a morte, e o Código Civil permite anular transmissão gratuita feita por devedor insolvente.
- Prazo da s. 26(3) da Ordinance
- um ano da causa de ação do credor
- Prazo para anular fraude contra credores (CC, art. 178)
- quatro anos
- Bond exigido do credor (s. 61, revisão de 2017)
- $ 270.000,00
- CBE anual
- US$ 1.000.000,00 em 31 de dezembro

O trust de Nevis é regido pela Nevis International Exempt Trust Ordinance: o instituidor transfere bens a um trustee, em benefício de terceiros. A lei de Nevis dificulta ações de credores, mas não decide a validade nem a tributação no Brasil. Aqui, os bens seguem do instituidor até a distribuição ou a morte (Lei 14.754, art. 10).
O que é o trust de Nevis?
É o international trust previsto na Ordinance, cap. 7.03(N). Pelo texto oficial, um trust só é "internacional" se estiver registrado e cumprir três condições (s. 2):
- •ao menos um trustee é uma sociedade de Nevis, uma LLC de Nevis, uma trust company licenciada em Nevis, um escritório de advocacia licenciado como registered agent ou uma fundação multiforme;
- •o instituidor e os beneficiários são sempre não residentes em St. Christopher e Nevis;
- •os bens do trust não incluem imóveis situados em St. Christopher e Nevis.
Os papéis são quatro:
| Papel | Quem é | Base |
|---|---|---|
| Instituidor (settlor) | Pessoa física que destina bens ao trust | Lei 14.754, art. 12, II |
| Trustee | Pessoa física ou jurídica com dever fiduciário de administrar os bens conforme a escritura | Lei 14.754, art. 12, III |
| Protector | Quem pode dirigir, aprovar ou vetar decisões do trustee e, salvo previsão contrária, remover e nomear trustees | Ordinance, s. 10 |
| Beneficiário | Quem recebe os bens e seus frutos conforme a escritura | Lei 14.754, art. 12, IV |
Este artigo trata do trust. A empresa em Nevis (LLC ou companhia) é outro instrumento, explicado em offshore em Nevis. Para a jurisdição em si, veja a página de Nevis.
Que regras de Nevis protegem os bens do trust?
A Ordinance traz regras favoráveis ao patrimônio dentro do sistema de Nevis. Os principais pontos do texto oficial (revisão de 31 de dezembro de 2017):
| Tema | O que o texto diz | Seção |
|---|---|---|
| Ação de credor | O credor precisa provar, além de dúvida razoável, que o trust foi criado com intenção principal de fraudá-lo e que deixou o instituidor insolvente | s. 26(1) |
| Prazo | Não é fraudulenta a transferência feita após um ano da data em que nasceu a causa de ação do credor | s. 26(3) |
| Credor futuro | Não é fraudulenta a transferência anterior ao nascimento da causa de ação | s. 26(4) |
| Sentença estrangeira | Não se processa em Nevis a execução ou o reconhecimento de sentença obtida em outra jurisdição contra o trust, o instituidor, o trustee ou o beneficiário | s. 30 |
| Leis estrangeiras | O trust não é invalidado porque a lei de outro país o desconhece ou porque ele frustra direitos que essa lei confere | s. 31 |
| Herdeiros | Direitos de herdeiros ou decorrentes de relação pessoal com o instituidor não invalidam o trust | s. 54 |
| Poderes do instituidor | Reter poder de revogar, vetar distribuições ou alterar o trust não o invalida | s. 53 |
| Garantia do credor | Antes de agir contra bens do trust, o credor deve depositar um bond de $ 270.000,00 de instituição financeira em Nevis | s. 61 |
Há também regras de duração ilimitada em certas condições (s. 5), de restrição da participação do beneficiário em caso de insolvência ou de alienação (spendthrift, s. 6) e de isenção de imposto de renda, de herança e de selo para o trust registrado (s. 49). O registro é renovado anualmente, com certificado válido por um ano (s. 43 e 44).
Essas regras são de Nevis e a revisão consultada é de 2017. Confirme a regra vigente com um advogado local antes de decidir, em especial valores como o bond.
O trust de Nevis vale contra credores no Brasil?
Não por si só. A Ordinance disciplina o que acontece em Nevis. No Brasil, a lei brasileira trata da transferência de bens de devedor. Veja as diferenças:
| Tema | Nevis | Brasil |
|---|---|---|
| Intenção | O credor prova a intenção principal de fraudar (s. 26(1)) | A transmissão gratuita por devedor já insolvente, ou reduzido à insolvência por ela, pode ser anulada "ainda quando o ignore" (CC, art. 158) |
| Quem pode reclamar | Só quem tinha a causa de ação antes da transferência (s. 26(4)) | Só os credores que já o eram ao tempo do ato (CC, art. 158, § 2º) |
| Prazo | Um ano da causa de ação (s. 26(3)) | Quatro anos de decadência, contados do dia do negócio (CC, art. 178, II) |
| Execução em curso | Sem regra equivalente no texto consultado | A alienação em fraude à execução é ineficaz perante o exequente, por exemplo quando tramitava ação capaz de reduzir o devedor à insolvência (CPC, art. 792, IV e § 1º) |
Se o negócio é anulado, a vantagem reverte em proveito do acervo do concurso de credores (CC, art. 165), e a ação pode ser dirigida contra o devedor, quem contratou com ele e terceiros adquirentes de má-fé (CC, art. 161). A decisão de um juiz brasileiro sobre pessoas e bens sob jurisdição brasileira segue a lei brasileira. A s. 30 diz respeito ao que se processa em Nevis. Ela não é lei brasileira, e os efeitos de uma decisão sobre bens no Brasil devem ser analisados por advogado.
Na prática, quanto mais cedo e com propósito legítimo o trust nascer, menor o risco de questionamento por credores. Veja também o guia de holding patrimonial internacional.
Como a Lei 14.754 trata o trust de Nevis?
Para os fins da lei brasileira, o trust não é o dono dos bens. O art. 10 da Lei 14.754/2023 estabelece:
- •os bens e direitos permanecem sob a titularidade do instituidor depois da criação do trust;
- •passam ao beneficiário quando o trust os distribui ou quando o instituidor morre, o que ocorrer primeiro;
- •a transmissão pode ser considerada anterior se o instituidor abdicar, de forma irrevogável, do direito sobre parte do patrimônio (§ 1º);
- •a mudança de titularidade é transmissão gratuita: doação, se em vida, ou transmissão causa mortis, se por morte (§ 2º);
- •rendimentos e ganhos de capital são considerados do titular na respectiva data e sujeitos ao IRPF conforme as regras aplicáveis a ele (§ 3º);
- •se o trust tiver uma controlada no exterior, ela é considerada detida diretamente pelo titular dos bens (§ 4º).
O art. 13 estende essas regras a contratos regidos por lei estrangeira com características similares às do trust, desde que não sejam entidades controladas.
Como o ITCMD se aplica ao trust?
A Lei 14.754 qualifica a distribuição como doação e a morte do instituidor como transmissão causa mortis (art. 10, § 2º). O ITCMD é estadual, e a Constituição Federal define a competência (art. 155, § 1º):
- •imóveis: o Estado onde o bem está situado;
- •bens móveis, títulos e créditos: o Estado onde o falecido era domiciliado ou onde o doador tem domicílio;
- •se o doador mora no exterior, ou o falecido tinha bens, residência ou inventário no exterior, a competência é regulada por lei complementar;
- •o imposto é progressivo conforme o valor do quinhão, do legado ou da doação.
A alíquota e o tratamento de bens no exterior dependem da lei do seu Estado. Confirme a regra vigente. Para a sucessão como um todo, veja o guia de planejamento sucessório internacional.
Quais obrigações o brasileiro tem com um trust?
- •Declaração de Ajuste Anual: os bens e direitos do trust devem ser declarados diretamente pelo titular, pelo custo de aquisição, em relação à data-base de 31 de dezembro de 2023 (Lei 14.754, art. 11). Se o trust já havia sido informado antes, ele deve ser substituído pelos bens e direitos subjacentes (art. 11, § 1º).
- •Informações do trustee: o instituidor ou o beneficiário deve requisitar ao trustee os recursos financeiros e as informações necessários para pagar o imposto e cumprir as obrigações no País (art. 10, § 5º). O descumprimento pelo trustee não afasta o dever do instituidor ou do beneficiário (art. 10, § 8º).
- •CBE: a declaração anual ao Banco Central é exigida quando o capital brasileiro no exterior soma US$ 1.000.000,00 ou mais em 31 de dezembro (Res. BCB 279/2022, art. 10). Confirme com o Banco Central como o trust entra nessa conta.
Quando o trust de Nevis não faz sentido?
- •Quando já existe dívida ou ação: o CC, art. 158, e o CPC, art. 792, tratam justamente desses casos.
- •Quando o único objetivo é esconder patrimônio: o trust precisa ser declarado na DAA e pode entrar na CBE.
- •Quando o instituidor quer manter controle total: a Ordinance permite certos poderes retidos (s. 53), mas a lei brasileira continua tratando os bens como dele até a distribuição.
- •Quando o patrimônio não comporta os custos do trustee, do registro anual e dos advogados: peça um orçamento escrito antes de decidir.
Para avaliar o desenho do seu caso, veja o serviço de planejamento fiscal internacional.
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Dr. Heitor Miguel
Advogado inscrito na OAB/SP 252.633. MBA em Direito Empresarial e M&A pela FGV. Especialista em Direito Internacional e iGaming. Presidente da Comissão de Direito Internacional da OAB/SBC. Deal Maker of the Year 2014 - IAE Awards.
O trust de Nevis protege o patrimônio de credores brasileiros?
Nem sempre. A Ordinance de Nevis dificulta ações de credores, mas a lei brasileira permite anular a transmissão gratuita feita por devedor insolvente (CC, art. 158) e declarar fraude à execução (CPC, art. 792). A proteção depende de o trust ser criado antes de dívidas e com propósito legítimo.
Quem é dono dos bens do trust para a Receita Federal?
O instituidor, até a distribuição ao beneficiário ou a morte dele, o que ocorrer primeiro (Lei 14.754, art. 10). Os rendimentos e ganhos de capital são considerados do titular e sujeitos ao IRPF.
O trust de Nevis precisa ser declarado no Brasil?
Sim. Os bens e direitos objeto do trust devem ser declarados diretamente pelo titular na DAA, pelo custo de aquisição (Lei 14.754, art. 11). Dependendo do valor, também pode haver a CBE, quando o capital brasileiro no exterior chega a US$ 1.000.000,00 em 31 de dezembro.
O que é a regra de um ano da Ordinance de Nevis?
Segundo a s. 26(3), a transferência para o trust não é fraudulenta contra um credor se ocorrer depois de um ano da data em que nasceu a causa de ação desse credor. É regra de Nevis. No Brasil, o prazo para anular negócio por fraude contra credores é de quatro anos, contado do negócio (CC, art. 178, II).
Há imposto de herança sobre os bens de um trust?
A Ordinance isenta o trust registrado de imposto de herança em Nevis (s. 49), mas o Brasil trata a morte do instituidor como transmissão causa mortis (Lei 14.754, art. 10, § 2º). O ITCMD é estadual, então confirme a regra vigente no seu Estado.
Qual a diferença entre o trust de Nevis e uma empresa em Nevis?
O trust separa a titularidade jurídica, com instituidor, trustee e beneficiário. A empresa é uma sociedade com sócios e administradores. Cada uma tem regras próprias em Nevis e no Brasil, e o artigo sobre a empresa em Nevis detalha esse outro instrumento.
- Research
Nevis International Exempt Trust Ordinance, Cap. 7.03(N)
lawcommission.gov.kn
- Research
Lei 14.754/2023
www.planalto.gov.br
- Research
Código Civil
www.planalto.gov.br
- Research
Código de Processo Civil
www.planalto.gov.br
- Research
Constituição Federal
www.planalto.gov.br
- Research
Resolução BCB 279/2022
www.bcb.gov.br


