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Trusts e Fundações

Trust de Nevis: Como Funciona e o que a Lei Brasileira Diz

•10 min de leitura•Autor verificado.•Atualizado em

Resposta rápida

O trust de Nevis segue a Nevis International Exempt Trust Ordinance, mas a lei de Nevis não vale como escudo no Brasil. Para a Lei 14.754, os bens continuam do instituidor até a distribuição ou a morte, e o Código Civil permite anular transmissão gratuita feita por devedor insolvente.

Prazo da s. 26(3) da Ordinance
um ano da causa de ação do credor
Prazo para anular fraude contra credores (CC, art. 178)
quatro anos
Bond exigido do credor (s. 61, revisão de 2017)
$ 270.000,00
CBE anual
US$ 1.000.000,00 em 31 de dezembro
Imagem ilustrativa: Trust de Nevis: Como Funciona e o que a Lei Brasileira Diz

O trust de Nevis é regido pela Nevis International Exempt Trust Ordinance: o instituidor transfere bens a um trustee, em benefício de terceiros. A lei de Nevis dificulta ações de credores, mas não decide a validade nem a tributação no Brasil. Aqui, os bens seguem do instituidor até a distribuição ou a morte (Lei 14.754, art. 10).

O que é o trust de Nevis?

É o international trust previsto na Ordinance, cap. 7.03(N). Pelo texto oficial, um trust só é "internacional" se estiver registrado e cumprir três condições (s. 2):

  1. •ao menos um trustee é uma sociedade de Nevis, uma LLC de Nevis, uma trust company licenciada em Nevis, um escritório de advocacia licenciado como registered agent ou uma fundação multiforme;
  2. •o instituidor e os beneficiários são sempre não residentes em St. Christopher e Nevis;
  3. •os bens do trust não incluem imóveis situados em St. Christopher e Nevis.

Os papéis são quatro:

PapelQuem éBase
Instituidor (settlor)Pessoa física que destina bens ao trustLei 14.754, art. 12, II
TrusteePessoa física ou jurídica com dever fiduciário de administrar os bens conforme a escrituraLei 14.754, art. 12, III
ProtectorQuem pode dirigir, aprovar ou vetar decisões do trustee e, salvo previsão contrária, remover e nomear trusteesOrdinance, s. 10
BeneficiárioQuem recebe os bens e seus frutos conforme a escrituraLei 14.754, art. 12, IV

Este artigo trata do trust. A empresa em Nevis (LLC ou companhia) é outro instrumento, explicado em offshore em Nevis. Para a jurisdição em si, veja a página de Nevis.

Que regras de Nevis protegem os bens do trust?

A Ordinance traz regras favoráveis ao patrimônio dentro do sistema de Nevis. Os principais pontos do texto oficial (revisão de 31 de dezembro de 2017):

TemaO que o texto dizSeção
Ação de credorO credor precisa provar, além de dúvida razoável, que o trust foi criado com intenção principal de fraudá-lo e que deixou o instituidor insolventes. 26(1)
PrazoNão é fraudulenta a transferência feita após um ano da data em que nasceu a causa de ação do credors. 26(3)
Credor futuroNão é fraudulenta a transferência anterior ao nascimento da causa de açãos. 26(4)
Sentença estrangeiraNão se processa em Nevis a execução ou o reconhecimento de sentença obtida em outra jurisdição contra o trust, o instituidor, o trustee ou o beneficiários. 30
Leis estrangeirasO trust não é invalidado porque a lei de outro país o desconhece ou porque ele frustra direitos que essa lei conferes. 31
HerdeirosDireitos de herdeiros ou decorrentes de relação pessoal com o instituidor não invalidam o trusts. 54
Poderes do instituidorReter poder de revogar, vetar distribuições ou alterar o trust não o invalidas. 53
Garantia do credorAntes de agir contra bens do trust, o credor deve depositar um bond de $ 270.000,00 de instituição financeira em Neviss. 61

Há também regras de duração ilimitada em certas condições (s. 5), de restrição da participação do beneficiário em caso de insolvência ou de alienação (spendthrift, s. 6) e de isenção de imposto de renda, de herança e de selo para o trust registrado (s. 49). O registro é renovado anualmente, com certificado válido por um ano (s. 43 e 44).

Essas regras são de Nevis e a revisão consultada é de 2017. Confirme a regra vigente com um advogado local antes de decidir, em especial valores como o bond.

O trust de Nevis vale contra credores no Brasil?

Não por si só. A Ordinance disciplina o que acontece em Nevis. No Brasil, a lei brasileira trata da transferência de bens de devedor. Veja as diferenças:

TemaNevisBrasil
IntençãoO credor prova a intenção principal de fraudar (s. 26(1))A transmissão gratuita por devedor já insolvente, ou reduzido à insolvência por ela, pode ser anulada "ainda quando o ignore" (CC, art. 158)
Quem pode reclamarSó quem tinha a causa de ação antes da transferência (s. 26(4))Só os credores que já o eram ao tempo do ato (CC, art. 158, § 2º)
PrazoUm ano da causa de ação (s. 26(3))Quatro anos de decadência, contados do dia do negócio (CC, art. 178, II)
Execução em cursoSem regra equivalente no texto consultadoA alienação em fraude à execução é ineficaz perante o exequente, por exemplo quando tramitava ação capaz de reduzir o devedor à insolvência (CPC, art. 792, IV e § 1º)

Se o negócio é anulado, a vantagem reverte em proveito do acervo do concurso de credores (CC, art. 165), e a ação pode ser dirigida contra o devedor, quem contratou com ele e terceiros adquirentes de má-fé (CC, art. 161). A decisão de um juiz brasileiro sobre pessoas e bens sob jurisdição brasileira segue a lei brasileira. A s. 30 diz respeito ao que se processa em Nevis. Ela não é lei brasileira, e os efeitos de uma decisão sobre bens no Brasil devem ser analisados por advogado.

Na prática, quanto mais cedo e com propósito legítimo o trust nascer, menor o risco de questionamento por credores. Veja também o guia de holding patrimonial internacional.

Como a Lei 14.754 trata o trust de Nevis?

Para os fins da lei brasileira, o trust não é o dono dos bens. O art. 10 da Lei 14.754/2023 estabelece:

  • •os bens e direitos permanecem sob a titularidade do instituidor depois da criação do trust;
  • •passam ao beneficiário quando o trust os distribui ou quando o instituidor morre, o que ocorrer primeiro;
  • •a transmissão pode ser considerada anterior se o instituidor abdicar, de forma irrevogável, do direito sobre parte do patrimônio (§ 1º);
  • •a mudança de titularidade é transmissão gratuita: doação, se em vida, ou transmissão causa mortis, se por morte (§ 2º);
  • •rendimentos e ganhos de capital são considerados do titular na respectiva data e sujeitos ao IRPF conforme as regras aplicáveis a ele (§ 3º);
  • •se o trust tiver uma controlada no exterior, ela é considerada detida diretamente pelo titular dos bens (§ 4º).

O art. 13 estende essas regras a contratos regidos por lei estrangeira com características similares às do trust, desde que não sejam entidades controladas.

Como o ITCMD se aplica ao trust?

A Lei 14.754 qualifica a distribuição como doação e a morte do instituidor como transmissão causa mortis (art. 10, § 2º). O ITCMD é estadual, e a Constituição Federal define a competência (art. 155, § 1º):

  • •imóveis: o Estado onde o bem está situado;
  • •bens móveis, títulos e créditos: o Estado onde o falecido era domiciliado ou onde o doador tem domicílio;
  • •se o doador mora no exterior, ou o falecido tinha bens, residência ou inventário no exterior, a competência é regulada por lei complementar;
  • •o imposto é progressivo conforme o valor do quinhão, do legado ou da doação.

A alíquota e o tratamento de bens no exterior dependem da lei do seu Estado. Confirme a regra vigente. Para a sucessão como um todo, veja o guia de planejamento sucessório internacional.

Quais obrigações o brasileiro tem com um trust?

  • •Declaração de Ajuste Anual: os bens e direitos do trust devem ser declarados diretamente pelo titular, pelo custo de aquisição, em relação à data-base de 31 de dezembro de 2023 (Lei 14.754, art. 11). Se o trust já havia sido informado antes, ele deve ser substituído pelos bens e direitos subjacentes (art. 11, § 1º).
  • •Informações do trustee: o instituidor ou o beneficiário deve requisitar ao trustee os recursos financeiros e as informações necessários para pagar o imposto e cumprir as obrigações no País (art. 10, § 5º). O descumprimento pelo trustee não afasta o dever do instituidor ou do beneficiário (art. 10, § 8º).
  • •CBE: a declaração anual ao Banco Central é exigida quando o capital brasileiro no exterior soma US$ 1.000.000,00 ou mais em 31 de dezembro (Res. BCB 279/2022, art. 10). Confirme com o Banco Central como o trust entra nessa conta.

Quando o trust de Nevis não faz sentido?

  1. •Quando já existe dívida ou ação: o CC, art. 158, e o CPC, art. 792, tratam justamente desses casos.
  2. •Quando o único objetivo é esconder patrimônio: o trust precisa ser declarado na DAA e pode entrar na CBE.
  3. •Quando o instituidor quer manter controle total: a Ordinance permite certos poderes retidos (s. 53), mas a lei brasileira continua tratando os bens como dele até a distribuição.
  4. •Quando o patrimônio não comporta os custos do trustee, do registro anual e dos advogados: peça um orçamento escrito antes de decidir.

Para avaliar o desenho do seu caso, veja o serviço de planejamento fiscal internacional.

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Dr. Heitor Miguel

Advogado inscrito na OAB/SP 252.633. MBA em Direito Empresarial e M&A pela FGV. Especialista em Direito Internacional e iGaming. Presidente da Comissão de Direito Internacional da OAB/SBC. Deal Maker of the Year 2014 - IAE Awards.

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O trust de Nevis protege o patrimônio de credores brasileiros?

Nem sempre. A Ordinance de Nevis dificulta ações de credores, mas a lei brasileira permite anular a transmissão gratuita feita por devedor insolvente (CC, art. 158) e declarar fraude à execução (CPC, art. 792). A proteção depende de o trust ser criado antes de dívidas e com propósito legítimo.

Quem é dono dos bens do trust para a Receita Federal?

O instituidor, até a distribuição ao beneficiário ou a morte dele, o que ocorrer primeiro (Lei 14.754, art. 10). Os rendimentos e ganhos de capital são considerados do titular e sujeitos ao IRPF.

O trust de Nevis precisa ser declarado no Brasil?

Sim. Os bens e direitos objeto do trust devem ser declarados diretamente pelo titular na DAA, pelo custo de aquisição (Lei 14.754, art. 11). Dependendo do valor, também pode haver a CBE, quando o capital brasileiro no exterior chega a US$ 1.000.000,00 em 31 de dezembro.

O que é a regra de um ano da Ordinance de Nevis?

Segundo a s. 26(3), a transferência para o trust não é fraudulenta contra um credor se ocorrer depois de um ano da data em que nasceu a causa de ação desse credor. É regra de Nevis. No Brasil, o prazo para anular negócio por fraude contra credores é de quatro anos, contado do negócio (CC, art. 178, II).

Há imposto de herança sobre os bens de um trust?

A Ordinance isenta o trust registrado de imposto de herança em Nevis (s. 49), mas o Brasil trata a morte do instituidor como transmissão causa mortis (Lei 14.754, art. 10, § 2º). O ITCMD é estadual, então confirme a regra vigente no seu Estado.

Qual a diferença entre o trust de Nevis e uma empresa em Nevis?

O trust separa a titularidade jurídica, com instituidor, trustee e beneficiário. A empresa é uma sociedade com sócios e administradores. Cada uma tem regras próprias em Nevis e no Brasil, e o artigo sobre a empresa em Nevis detalha esse outro instrumento.