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Trusts e Fundações

Offshore Trust para Brasileiros: Como Funciona e Como é Tributado em 2026

•9 min de leitura•Autor verificado.•Atualizado em

Resposta rápida

Um offshore trust é um contrato de lei estrangeira em que o instituidor transfere bens a um trustee em favor de beneficiários. Para a Receita, pela Lei 14.754/2023, os bens continuam do instituidor até a distribuição ou a morte dele, e a passagem aos beneficiários é tratada como doação ou herança, com ITCMD.

Titular para a Receita
Instituidoraté distribuição ou morte
Distribuição em vida
Doaçãocom ITCMD
Declaração
Bensnão o trust
Caução para atacar trust em Nevis
EC$ 270 milseção 61
Imagem ilustrativa: Offshore Trust para Brasileiros: Como Funciona e Como é Tributado em 2026

Um offshore trust para brasileiro é um contrato regido por lei estrangeira: o instituidor transfere bens a um trustee, que os administra para os beneficiários. Para a Receita, desde a Lei 14.754/2023, esses bens continuam sendo do instituidor até a distribuição ou a morte dele. Os rendimentos são tributados como se fossem dele, e a passagem aos beneficiários conta como doação ou herança.

Este guia explica como o trust funciona, como ele é declarado no Brasil, o que muda entre trust revogável e irrevogável e como escolher a jurisdição. A pergunta específica sobre proteção contra credores está em trusts e proteção patrimonial.

Como funciona um offshore trust?

Há quatro papéis. A Lei 14.754/2023 define os três primeiros (art. 12); o protetor é uma figura da escritura do trust:

PapelQuem éO que faz
Instituidor (settlor)Pessoa física que destina os bens ao trustAssina a escritura do trust e transfere os bens
TrusteePessoa física ou jurídica com dever fiduciárioMantém e administra os bens conforme a escritura e a carta de desejos
BeneficiárioUma ou mais pessoas indicadasRecebe os bens e seus frutos conforme as regras do trust
Protetor (protector)Figura opcional prevista na escrituraFiscaliza o trustee e pode ter poder de veto ou de substituição

Dois documentos regem o trust: a escritura (trust deed), com as regras de administração e distribuição, e a carta de desejos (letter of wishes), que orienta o trustee sobre a vontade do instituidor.

Como o trust é tributado no Brasil?

Pela Lei 14.754/2023, o trust é transparente para o imposto de renda. Os bens continuam com o instituidor depois da instituição e passam ao beneficiário na distribuição ou na morte do instituidor, o que vier primeiro (art. 10). Até lá, os rendimentos e ganhos de capital são do titular e seguem as regras de imposto de renda aplicáveis a ele.

MomentoQuem é o titular para a ReceitaO que acontece
Depois de instituir o trustO instituidorDeclara os bens subjacentes na própria declaração, pelo custo de aquisição
Rendimentos dos bensO titular naquela dataTributados conforme o tipo de rendimento (por exemplo, 15% sobre aplicações financeiras)
Distribuição ao beneficiário em vidaPassa ao beneficiárioTratada como doação (art. 10, § 2º)
Morte do instituidorPassa ao beneficiárioTratada como transmissão causa mortis
Trust que detém uma empresa no exteriorO titular dos bens do trustA empresa é tratada como controlada dele (art. 10, § 4º)

Na declaração, aparecem os bens que estão dentro do trust, e não o trust em si (art. 11). A lei também obriga o instituidor ou o beneficiário a pedir ao trustee os recursos e as informações necessários para pagar o imposto. Se o trustee se recusar, a obrigação de pagar continua (art. 10, §§ 5º e 8º).

Quando a transmissão é tratada como doação ou herança, incide o ITCMD. A Emenda Constitucional 132/2023 atribui o imposto sobre bens do falecido, ainda que situados no exterior, ao estado onde ele era domiciliado (art. 16, III).

Trust revogável ou irrevogável: o que muda?

No direito estrangeiro, a diferença é grande. No revogável, o instituidor pode desfazer o trust. No irrevogável, não pode. Na tributação brasileira, a regra geral é a mesma para os dois: os bens continuam do instituidor até a distribuição ou a morte.

A exceção está no art. 10, § 1º: se o instituidor abdicar, de forma irrevogável, do direito sobre parte do patrimônio do trust, a transmissão ao beneficiário pode ser considerada ocorrida naquele momento. A consequência é uma doação antecipada, com ITCMD, e os rendimentos daquela parte passam a ser do beneficiário.

TipoControle do instituidorEfeito no Brasil
RevogávelAlto: pode mudar ou desfazerBens e rendimentos dele até distribuição ou morte
Irrevogável, com direitos reservadosMédioMesmo efeito do revogável
Irrevogável, com abdicação irrevogável de parte do patrimônioBaixo sobre a parte abdicadaA parte abdicada pode ser tratada como doação na data da abdicação

Qual jurisdição escolher?

A escolha depende do objetivo. Para proteção contra credores, Nevis e Ilhas Cook têm leis feitas para dificultar o ataque à transferência: exigem do credor prova além de dúvida razoável e impõem prazos curtos (Ordenança de Nevis, seção 26; Ilhas Cook, seção 13B). Para sucessão e gestão de patrimônio grande, pesam mais a reputação da jurisdição, a qualidade dos trustees e a aceitação pelos bancos.

CritérioNevisIlhas Cook
Prova exigida do credorAlém de dúvida razoávelAlém de dúvida razoável
Prazo para atacar a transferênciaTransferência feita mais de 1 ano depois de nascer o direito do credor não é fraudulentaAção em até 1 ano da transferência e, no Tribunal Superior das Ilhas Cook, em até 2 anos
Barreira de entrada para o credorCaução de EC$ 270.000 antes de propor a açãoNovo processo nas Ilhas Cook, com advogado local

Para quem mora no Brasil, nenhuma jurisdição muda a tributação: a Lei 14.754/2023 atribui os bens ao instituidor em qualquer país. Detalhes em trust em Nevis e trust nas Ilhas Cook. A comparação com a alternativa de direito civil está em fundação de interesse privado no Panamá.

Equipe revisando documentos de estruturação de trust

O trust protege contra credores?

Protege contra credores futuros e com limites. A transferência feita depois que a dívida já existe pode ser atacada no Brasil, como fraude contra credores ou fraude à execução, e o juiz brasileiro continua alcançando o instituidor que mora aqui. As regras completas estão em proteção de bens contra credores.

Trust, LLC ou holding: quando usar cada um?

ObjetivoEstrutura mais usadaObservação
Sucessão de patrimônio no exterior, com regras para várias geraçõesTrustBens do instituidor até a morte; depois, passam aos beneficiários conforme a escritura
Investir no exterior com custo baixoConta em nome próprio ou LLCLLC de brasileiro costuma ser tributada todo 31 de dezembro
Organizar imóveis e empresas no BrasilHolding familiarDoação de quotas com usufruto e ITCMD planejado
Governança com órgãos e personalidade jurídicaFundaçãoA fundação controlada pelo fundador é tributada como controlada

A holding brasileira está em holding familiar, e a sucessão de bens no exterior em offshore e sucessão sem inventário.

Como estruturar um offshore trust, passo a passo?

  1. •Objetivo. Definir se o foco é sucessão, proteção ou gestão, e quem serão os beneficiários.
  2. •Cálculo tributário. Simular IR e ITCMD com base na Lei 14.754/2023, inclusive o efeito de eventual abdicação irrevogável.
  3. •Jurisdição e trustee. Escolher a lei aplicável e um trustee licenciado na jurisdição.
  4. •Escritura e carta de desejos. Incluir cláusula que obrigue o trustee a fornecer as informações e os recursos para os impostos no Brasil, como a lei exige.
  5. •Transferência dos bens. Feita antes de qualquer dívida ou processo, com a origem dos recursos documentada.
  6. •Declarações. Bens do trust na declaração de imposto de renda do titular e, se os ativos no exterior somarem US$ 1 milhão ou mais em 31 de dezembro, na CBE do Banco Central.

O desenho de cada caso faz parte do serviço de planejamento sucessório.

Conclusão

O offshore trust continua útil para brasileiros, mas pelo motivo certo: organizar a sucessão de patrimônio no exterior com regras claras. Desde a Lei 14.754/2023, ele não esconde nem adia imposto. Os bens e os rendimentos ficam com o instituidor até a distribuição ou a morte, e a passagem aos beneficiários paga ITCMD. Antes de instituir, faça a conta de IR e ITCMD e prepare a escritura para cumprir as obrigações brasileiras. Para avaliar o seu caso, agende uma consultoria ou veja o serviço de planejamento fiscal.

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Dr. Heitor Miguel

Advogado inscrito na OAB/SP 252.633. MBA em Direito Empresarial e M&A pela FGV. Especialista em Direito Internacional e iGaming. Presidente da Comissão de Direito Internacional da OAB/SBC. Deal Maker of the Year 2014 - IAE Awards.

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O trust tira os bens do meu nome para a Receita?

Não. Pela Lei 14.754/2023, os bens do trust continuam sendo do instituidor até a distribuição ao beneficiário ou até a morte do instituidor. Os rendimentos são tributados como dele, e os bens são declarados na declaração dele.

Trust irrevogável é tributado de forma diferente do revogável?

Em regra, não. A exceção é a abdicação irrevogável do instituidor sobre parte do patrimônio: nesse caso, a transmissão daquela parte pode ser considerada ocorrida na data, como doação, com ITCMD.

Incide ITCMD quando o trust distribui para meus filhos?

Sim. A distribuição em vida é tratada como doação, e a passagem com a morte do instituidor, como herança (Lei 14.754/2023, art. 10, § 2º). O ITCMD de bens no exterior cabe ao estado de domicílio do falecido, conforme a EC 132/2023.

Preciso declarar o trust ou os bens dentro dele?

Os bens. A lei manda declarar diretamente os bens e direitos subjacentes, pelo custo de aquisição, e não o trust como um item único (art. 11).

E se o trustee não me passar as informações para pagar o imposto?

A obrigação de pagar continua. A lei manda o instituidor ou o beneficiário pedir ao trustee os recursos e as informações, e diz que a recusa do trustee não afasta as obrigações tributárias (art. 10, §§ 5º e 8º).

Nevis ou Ilhas Cook: qual protege mais?

As duas exigem do credor prova além de dúvida razoável. Nevis exige caução de EC$ 270 mil para o credor propor a ação, e as Ilhas Cook têm prazos de um e dois anos para o ataque à transferência. Nenhuma das duas muda a tributação no Brasil.