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Trusts e Fundações

VISTA Trust nas BVI: como funciona e o que muda para o brasileiro

•10 min de leitura•Autor verificado.•Atualizado em

Resposta rápida

Um VISTA trust é um trust das Ilhas Virgens Britânicas que guarda ações de empresa BVI sem que o trustee interfira na gestão, feita pelos diretores. Para o brasileiro residente, a Lei 14.754/2023 mantém os bens com o instituidor e pode tributar os lucros da empresa a 15% em 31 de dezembro.

Lei das BVI que criou o VISTA
Act nº 10 de 2003
Trustee pode ser diretor da empresa
Não
Alíquota do IRPF sobre lucros de controlada
15%
Renda ativa própria abaixo da qual o lucro da controlada é tributado em 31 de dezembro
60%da renda total
Limite da CBE anual
US$ 1.000.000,00em 31 de dezembro
Imagem ilustrativa: VISTA Trust nas BVI: como funciona e o que muda para o brasileiro

Um VISTA trust é um trust das Ilhas Virgens Britânicas que guarda ações de uma empresa BVI sem que o trustee interfira na gestão, que fica com os diretores. A lei local é de 2003. Para o brasileiro residente, a Lei 14.754/2023 continua tratando os bens como do instituidor e a empresa como possível controlada dele.

O que é um VISTA trust e para que serve?

VISTA é a sigla da lei das BVI que criou esse tipo de trust, a Virgin Islands Special Trusts Act (Act nº 10 de 2003, em vigor desde 1º de março de 2004). A lei diz que seu objetivo principal é permitir um trust de ações de empresa em que "as ações possam ser mantidas indefinidamente" e a gestão da empresa seja feita pelos diretores, sem poder de intervenção do trustee (seção 3).

Na prática, o VISTA resolve um problema específico: o trustee comum tem deveres sobre o patrimônio que guarda, e isso colide com a ideia de um empresário manter uma operação em funcionamento por décadas, sob a gestão de quem a conhece. A lei afasta alguns desses deveres só para as ações designadas.

PontoO que a lei das BVI dizSeção
Dever de reterO trustee mantém as ações designadas, e esse dever tem precedência sobre preservar ou valorizar o patrimônio do trust5 (1) e (2)
PerdasO trustee não responde por perdas decorrentes de manter as ações, como queda de valor ou má gestão dos diretores5 (3) e (4)
GestãoO trustee não usa seus votos para interferir na condução dos negócios nem exige dividendos6 (2)
DiretoresO trustee não pode ser diretor da empresa13
Dever de cuidadoO trustee não tem responsabilidade fiduciária sobre os ativos ou a gestão da empresa, salvo ao atender uma "intervention call"15 (1)

Para o contexto geral do trust no Brasil, veja trusts: instituidor, trustee e beneficiário.

Que condições a lei das BVI exige para um trust ser VISTA?

O trust só passa a ser VISTA se cumprir condições da seção 4. A lei exige um instrumento escrito, testamentário ou entre vivos. Pelo menos um dos trustees precisa ser um "designated trustee" durante todo o período, e o instrumento precisa prever isso. O instrumento também precisa dizer que a lei se aplica às ações (todas ou as indicadas).

Duas definições limitam o alcance:

  • •Designated trustee: titular de licença de trust sob a Banks and Trust Companies Act, ou private trust company nos termos previstos nas Financial Services (Exemptions) Regulations (seção 2).
  • •Virgin Islands shares: ações de empresa registrada sob a BVI Business Companies Act, com exceções. Ficam de fora empresas com licença bancária ou de trust, seguradoras, fundos registrados ou reconhecidos, administradoras de fundos e empresas licenciadas por certas leis de serviços financeiros (seção 2).

Ou seja, o VISTA vale para ações de empresa BVI comum, e não para qualquer ativo. Para entender a empresa em si, leia como abrir uma empresa nas BVI e por que escolher as BVI.

O trustee de um VISTA trust não pode mesmo intervir na empresa?

Pode, em hipóteses limitadas. Se uma pessoa interessada (por exemplo, um beneficiário) tiver uma reclamação sobre a condução dos negócios e o motivo for permitido, ela pode pedir por escrito que o trustee intervenha. O instrumento pode listar os motivos permitidos, mas não é obrigado a fazê-lo (seção 8, itens 1 e 2).

Recebida essa "intervention call", o trustee avalia se a reclamação procede e age como considerar adequado, o que pode incluir mudanças na diretoria (seção 8, itens 3 e 4). O instrumento também pode trazer regras sobre como o trustee vota para nomear, destituir e remunerar diretores (seção 7).

A venda das ações também é possível. O trustee tem poder de venda sobre as ações designadas, mas, salvo disposição em contrário do instrumento, precisa do consentimento dos diretores e de eventuais outros consentimentos previstos (seção 9, itens 2 e 3). Quem desenha a estrutura deve revisar esses pontos da escritura, porque quase tudo depende do que está escrito nela.

Como a Lei 14.754/2023 trata um VISTA trust de brasileiro residente?

A lei brasileira ignora o rótulo VISTA. Ela olha para o trust como "figura contratual regida por lei estrangeira" (art. 12, I) e aplica a regra geral: os bens permanecem sob titularidade do instituidor após a criação do trust e passam ao beneficiário na distribuição ou na morte do instituidor, o que ocorrer primeiro (art. 10, I e II).

Consequências previstas no texto:

  • •Rendimentos e ganhos de capital dos bens do trust são considerados do titular e sujeitos ao IRPF (art. 10, § 3º).
  • •Se o trust detiver uma controlada no exterior, ela é considerada detida diretamente pelo titular, e valem as regras de tributação de controladas (art. 10, § 4º).
  • •Os lucros de controlada são tributados em 31 de dezembro de cada ano quando ela está em país ou dependência de tributação favorecida ou tem renda ativa própria inferior a 60% da renda total (art. 5º, § 5º). A alíquota do IRPF no ajuste anual para esses rendimentos é de 15% (art. 2º, § 1º).
  • •A Receita Federal lista as Ilhas Virgens Britânicas no art. 1º da IN RFB 1.037/2010, que relaciona países ou dependências com tributação favorecida.

Ou seja, a estrutura VISTA não tira a empresa BVI do alcance dessas regras. O quanto de imposto resulta depende da empresa: se é operacional ou passiva, do seu lucro e do enquadramento no art. 5º. Confirme com contador antes de implementar. Veja também trust offshore: vale a pena para brasileiros.

O VISTA trust evita inventário e afasta a legítima?

Não há base na lei brasileira para presumir isso. A sucessão por morte obedece à lei do país onde o falecido era domiciliado, qualquer que seja a natureza e a situação dos bens (LINDB, art. 10). Para quem morre domiciliado no Brasil, metade da herança pertence aos herdeiros necessários (descendentes, ascendentes e cônjuge), que é a legítima (Código Civil, arts. 1.845 e 1.846), e a doação é nula na parte que exceda o que o doador poderia dispor em testamento (art. 549).

A Lei 14.754/2023 trata a mudança de titularidade do trust como doação, se em vida, ou transmissão causa mortis, se decorrente da morte do instituidor (art. 10, § 2º). Ela não afasta as regras de legítima e de doação inoficiosa do Código Civil. Se a ideia é evitar um inventário no exterior ou organizar a sucessão de uma empresa, discuta o desenho com advogado de sucessões. Para o quadro geral, veja offshore e sucessão e sucessão com bens em vários países.

O que o brasileiro precisa declarar?

  • •Receita Federal. O titular declara os bens e direitos do trust diretamente na DAA, pelo custo de aquisição (Lei 14.754/2023, art. 11, em relação à data-base de 31 de dezembro de 2023). Ele deve pedir ao trustee as informações e os recursos para pagar o imposto (art. 10, § 5º), e a recusa do trustee não afasta a obrigação do instituidor ou do beneficiário (art. 10, § 8º).
  • •Banco Central (CBE). A declaração anual é obrigatória para residentes com ativos no exterior que somem US$ 1.000.000,00 ou mais em 31 de dezembro. O prazo vai de 15 de fevereiro a 5 de abril do ano seguinte, e a multa por não declarar vai de R$ 2.500,00 a R$ 250.000,00, segundo a página do BCB sobre a CBE.

Quando um VISTA trust faz sentido, e quando não?

Faz sentido em um caso específico: a família quer manter uma empresa BVI em operação, com diretores no comando, dentro de um trust, sem que o trustee precise acompanhar o negócio ou responda por seu desempenho. Para quem busca apenas proteção patrimonial genérica, compare com asset protection trust offshore e com a holding familiar no Brasil.

Não faz sentido quando o ativo não é ação de empresa BVI elegível, quando se espera economia de imposto no Brasil (a lei brasileira tributa o titular), ou quando o objetivo é fugir de uma dívida existente: a transferência pode ser anulada por fraude contra credores (Código Civil, art. 158).

O que conferir antes de contratar?

  1. •Escritura. Peça a minuta e confirme a invocação da lei VISTA, os motivos permitidos de intervenção e as regras sobre diretores.
  2. •Trustee. Confirme que é um "designated trustee" e peça a licença.
  3. •Empresa. Verifique se a empresa está fora das exceções da definição de "Virgin Islands shares".
  4. •Lei 14.754/2023. Confirme que a escritura prevê a cooperação do trustee com as obrigações brasileiras (art. 10, § 6º), e quais informações ele fornecerá todo ano.
  5. •Sucessão. Revise com advogado brasileiro a legítima e a doação.
  6. •Custos. Peça proposta por escrito. Este artigo não estima valores.
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Dr. Heitor Miguel

Advogado inscrito na OAB/SP 252.633. MBA em Direito Empresarial e M&A pela FGV. Especialista em Direito Internacional e iGaming. Presidente da Comissão de Direito Internacional da OAB/SBC. Deal Maker of the Year 2014 - IAE Awards.

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O que significa VISTA trust?

VISTA vem de Virgin Islands Special Trusts Act, a lei das Ilhas Virgens Britânicas de 2003 que permite um trust de ações de empresa no qual o trustee não interfere na gestão, feita pelos diretores (seção 3 da lei).

O trustee pode ser diretor da empresa em um VISTA trust?

Não. A seção 13 da lei diz que o trustee de ações designadas não pode ser nem se tornar diretor da empresa.

Um VISTA trust funciona para qualquer ativo?

Não. Ele se aplica a ações de empresa registrada sob a BVI Business Companies Act, com exceções como bancos, seguradoras, fundos e administradoras licenciadas (seção 2 da lei). Outros ativos exigem outro tipo de estrutura.

O VISTA trust reduz imposto no Brasil?

Não por si só. Pela Lei 14.754/2023, os bens do trust permanecem com o instituidor e os rendimentos são tributados nele (art. 10). A controlada em país de tributação favorecida ou com renda ativa própria inferior a 60% é tributada em 31 de dezembro, com alíquota de 15% (arts. 2º e 5º).

O VISTA trust evita o inventário no Brasil?

A lei brasileira não garante isso. A sucessão segue a lei do domicílio do falecido (LINDB, art. 10), a legítima é de metade da herança (Código Civil, art. 1.846) e a Lei 14.754/2023 trata a morte do instituidor como transmissão causa mortis (art. 10, § 2º). Consulte um advogado de sucessões.

Preciso declarar o VISTA trust ao Banco Central?

A CBE anual é obrigatória quando os ativos no exterior somam US$ 1.000.000,00 ou mais em 31 de dezembro. Confira o total dos seus ativos e o prazo na página do BCB. Além disso, o titular declara os bens do trust na DAA (Lei 14.754/2023, art. 11).