Fundação de Interesse Privado no Panamá: Guia 2026 para Brasileiros
Resposta rápida
A fundação de interesse privado do Panamá é uma entidade sem sócios, criada pela Lei 25/1995, com patrimônio inicial mínimo de US$ 10 mil e conselho de ao menos três membros. Ela organiza a sucessão, mas não adia imposto: controlada pelo fundador, tem o lucro tributado no Brasil a 15% todo 31 de dezembro.
- Patrimônio inicial mínimo
- US$ 10 milLei 25/1995
- Conselho de fundação
- 3membros no mínimo
- Prazo para credores contestarem
- 3anos
- IR no Brasil (controlada)
- 15%todo 31/12
- 01O que é uma fundação de interesse privado no Panamá?
- 02Fundação panamenha ou trust: qual a diferença?
- 03A fundação protege os bens contra credores?
- 04Como a fundação panamenha é tributada no Brasil?
- 05O que precisa ser declarado no Brasil?
- 06Quanto custa e como se constitui?
- 07A fundação evita inventário?
- 08Conclusão

A fundação de interesse privado do Panamá é uma entidade sem sócios, criada pela Lei 25 de 1995, com patrimônio inicial mínimo de US$ 10 mil. Ela organiza bem a sucessão, mas não adia imposto: o Panamá está na lista de tributação favorecida da Receita, e a fundação controlada pelo fundador tem o lucro tributado no Brasil todo ano.
Este guia mostra o que a lei panamenha garante, o que ela não garante e como a fundação é declarada no Brasil depois da Lei 14.754/2023.

O que é uma fundação de interesse privado no Panamá?
É uma pessoa jurídica de direito panamenho, sem sócios nem quotas, criada por um ato fundacional registrado no Registro Público. O fundador transfere bens para ela, e a fundação os administra para os fins escritos no ato, que normalmente são sustentar e suceder uma família. A lei proíbe fins lucrativos, mas permite atividade comercial eventual para cumprir esses fins.
Os elementos que a Lei 25/1995 exige ou permite:
| Elemento | O que a lei diz | Artigo |
|---|---|---|
| Fins | Sem fins lucrativos; atividade comercial só não habitual e para cumprir os fins | Art. 3 |
| Ato fundacional | Nome com a palavra "Fundación", patrimônio inicial, fins, conselho, beneficiários ou forma de designá-los | Art. 5 |
| Patrimônio inicial | Nunca inferior a B/. 10.000, o equivalente a US$ 10 mil | Art. 5 |
| Patrimônio separado | Os bens da fundação não respondem por dívidas pessoais do fundador nem dos beneficiários | Art. 11 |
| Conselho de fundação | No mínimo três membros, salvo se o conselho for uma pessoa jurídica | Art. 17 |
| Protetor | Órgão de fiscalização opcional, designado pelo fundador, cuja autorização prévia pode ser exigida para atos do conselho | Art. 19 |
| Sigilo | Conselho e prestadores devem guardar sigilo, sob pena de prisão e multa, salvo diante de autoridade | Art. 35 |
Fundação panamenha ou trust: qual a diferença?
A fundação é dona dos próprios bens e tem personalidade jurídica. No trust, os bens passam a um trustee, que os administra em nome dos beneficiários, sem que o trust seja uma pessoa jurídica. Para quem vem do direito civil brasileiro, a fundação costuma ser mais fácil de entender, porque funciona como uma entidade com órgãos e estatuto.
| Critério | Fundação panamenha | Trust |
|---|---|---|
| Personalidade jurídica | Sim | Não |
| Quem é dono dos bens | A fundação | O trustee, em benefício dos beneficiários |
| Quem administra | Conselho de fundação | Trustee |
| Supervisão | Protetor, se previsto | Protector, se previsto |
| Origem | Direito civil (Lei 25/1995) | Common law |
| Tratamento no Brasil | Controlada (Lei 14.754, art. 5º) ou regra do trust (art. 13), conforme o controle | Bens atribuídos ao instituidor (Lei 14.754, art. 10) |
A comparação com outras estruturas de proteção está no guia de proteção patrimonial offshore.
A fundação protege os bens contra credores?
Protege contra credores pessoais futuros do fundador, não contra os que já existem. O art. 11 da Lei 25/1995 separa os bens da fundação dos bens do fundador. O art. 15 permite que credores contestem a transferência feita em fraude contra eles, dentro de três anos contados da transferência.
Duas consequências práticas:
- •Prazo de três anos. Uma transferência feita com credor já existente pode ser contestada no Panamá nesse período. Depois disso, o direito prescreve pela lei panamenha.
- •O juiz brasileiro continua alcançando o fundador. Se a transferência for feita com execução em curso no Brasil, ela é ineficaz perante o credor, pelo art. 792 do Código de Processo Civil. A lei panamenha não impede o juiz de agir sobre a pessoa e os bens que ficaram no país.
Os limites da proteção patrimonial no Brasil, com as regras de fraude contra credores e de fraude à execução, estão em proteção de bens contra credores.
Como a fundação panamenha é tributada no Brasil?
Depende de quem controla a fundação. O Panamá consta da lista de países com tributação favorecida do art. 1º da Instrução Normativa RFB 1.037/2010. A Lei 14.754/2023 inclui expressamente as fundações entre as entidades que podem ser controladas no exterior (art. 5º, § 1º).
| Situação | Tratamento | Base legal |
|---|---|---|
| Fundador ou família controla a fundação: direito de nomear ou destituir o conselho, decidir distribuições ou receber os ativos na liquidação | Controlada em país de tributação favorecida: lucro tributado a 15% em 31 de dezembro de cada ano, distribuído ou não | Lei 14.754/2023, art. 5º, §§ 1º e 5º, I |
| Fundação sem controle do fundador, com características de trust | Bens atribuídos ao instituidor até a distribuição ou a morte; a passagem ao beneficiário é tratada como doação ou herança | Lei 14.754/2023, arts. 10 e 13 |
Na prática, a maioria das fundações familiares dá ao fundador direitos reservados: trocar o conselho, mudar beneficiários, revogar. Com esses direitos, ele controla a entidade, e a fundação entra na regra anual. A fundação panamenha não adia o imposto de renda de quem mora no Brasil.
O ITCMD também continua a incidir. A Emenda Constitucional 132/2023 atribui o imposto sobre bens do falecido, ainda que situados no exterior, ao estado em que ele era domiciliado (art. 16, III). O desenho tributário de cada caso faz parte do planejamento fiscal.
O que precisa ser declarado no Brasil?
A fundação entra na declaração de imposto de renda todo ano, com os lucros ou os bens atribuídos ao fundador. Se o patrimônio no exterior somar US$ 1 milhão ou mais em 31 de dezembro, ela também entra na declaração de Capitais Brasileiros no Exterior ao Banco Central. A fundação controlada ainda precisa de balanço anual pelos padrões contábeis brasileiros.
| Obrigação | Quando se aplica | Fonte |
|---|---|---|
| Declaração de imposto de renda | Sempre: a participação ou os bens atribuídos e os lucros, na ficha própria da Lei 14.754 | Receita Federal |
| Capitais Brasileiros no Exterior (CBE) | Bens e direitos de US$ 1 milhão ou mais no exterior em 31 de dezembro | Banco Central |
| Balanço da controlada | Controlada em país de tributação favorecida: balanço anual pelos padrões contábeis brasileiros | Lei 14.754/2023, art. 5º, § 10, I, b |
O sigilo do art. 35 da Lei 25/1995 vale para o público, não para autoridades. A própria lei ressalva as informações que precisam ser reveladas a autoridades, e o Panamá participa da troca automática de informações financeiras da OCDE. O sigilo não substitui a declaração.
Quanto custa e como se constitui?
A única cifra fixada em lei é o patrimônio inicial mínimo de US$ 10 mil. Honorários de abertura, agente residente, membros do conselho e taxas anuais do Registro Público variam por prestador e precisam ser cotados caso a caso. Somam-se a eles os custos do lado brasileiro: contabilidade da controlada pelos padrões brasileiros, declarações e assessoria.
Passos usuais:
- •Diagnóstico: objetivo sucessório, beneficiários e o tratamento fiscal que a estrutura terá no Brasil.
- •Redação do ato fundacional e do regulamento, com fins, beneficiários e regras de distribuição.
- •Escolha do conselho de fundação, com pelo menos três membros ou uma pessoa jurídica, e do protetor, se houver.
- •Registro do ato fundacional no Registro Público do Panamá, por meio de agente residente.
- •Transferência do patrimônio e abertura de conta bancária em nome da fundação.
- •Inclusão na declaração de imposto de renda e, se atingir o limite, na CBE.
A página de jurisdição do Panamá resume o ambiente local, e o serviço de planejamento sucessório cobre o desenho da estrutura.

A fundação evita inventário?
Evita o inventário dos bens que estão nela, porque a fundação continua a existir e o regulamento diz quem recebe. Os bens que ficaram no nome do fundador seguem para o inventário normal. A tributação brasileira, por outro lado, não desaparece: a passagem aos beneficiários pode gerar ITCMD, e enquanto o fundador controlar a fundação, o lucro é tributado nele todo ano. Os caminhos para organizar a sucessão de bens no exterior estão em offshore e sucessão sem inventário.
Conclusão
A fundação de interesse privado panamenha é uma boa ferramenta de governança e sucessão: tem personalidade jurídica, patrimônio separado e regras claras na Lei 25/1995. Ela não é ferramenta de economia de imposto para quem mora no Brasil. O Panamá está na lista de tributação favorecida, e a fundação controlada pelo fundador tem o lucro tributado todo ano. Use-a quando o objetivo é organizar a passagem do patrimônio, com a declaração brasileira prevista desde o início. Para avaliar o seu caso, agende uma consultoria.
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Dr. Heitor Miguel
Advogado inscrito na OAB/SP 252.633. MBA em Direito Empresarial e M&A pela FGV. Especialista em Direito Internacional e iGaming. Presidente da Comissão de Direito Internacional da OAB/SBC. Deal Maker of the Year 2014 - IAE Awards.
Qual o patrimônio mínimo para abrir uma fundação no Panamá?
A Lei 25/1995 exige patrimônio inicial de pelo menos B/. 10.000, o equivalente a US$ 10 mil (art. 5). Esse é o mínimo legal. Os custos de abertura e manutenção são cobrados à parte pelos prestadores.
A fundação panamenha adia o imposto de renda no Brasil?
Não, quando o fundador a controla. O Panamá está na lista de tributação favorecida da IN RFB 1.037/2010, e a Lei 14.754/2023 trata a fundação controlada como entidade controlada: o lucro é tributado a 15% em 31 de dezembro de cada ano, distribuído ou não.
Credores podem atacar os bens da fundação?
Os credores do fundador podem contestar a transferência feita em fraude contra eles, dentro de três anos contados da transferência (Lei 25/1995, art. 15). Fora disso, os bens da fundação não respondem por dívidas pessoais do fundador nem dos beneficiários (art. 11).
Quantos membros precisa ter o conselho de fundação?
Pelo menos três, salvo se o conselho for exercido por uma pessoa jurídica (art. 17).
O sigilo da fundação impede a Receita Federal de saber?
Não. O dever de sigilo do art. 35 da Lei 25/1995 ressalva as informações devidas às autoridades, e o Panamá participa da troca automática de informações financeiras. O brasileiro precisa declarar a fundação no imposto de renda e, a partir de US$ 1 milhão no exterior, na CBE.
Fundação ou trust: qual é melhor para brasileiro?
Depende do objetivo e do tratamento fiscal. A fundação tem personalidade jurídica e órgãos, o que facilita a governança. No Brasil, a fundação controlada é tributada todo ano. O trust tem os bens atribuídos ao instituidor até a distribuição. A escolha precisa ser feita com o cálculo do imposto em mãos.


